Certa vez, eu vi algumas pessoas precisando gravar um vídeo onde cada uma deveria dizer algo sobre a sua profissão. Qual não foi a minha surpresa quando um disse para entrar no ChatGPT para ele sugerir um texto para cada especialista?
Isso mostra que as pessoas já desistiram de pensar. Eu até entendo. Isso acontece em casais. Se um dos dois faz algo com muito mais facilidade que o outro, este acaba por não tentar mais. O que acontece? Ele fica ainda mais incompetente naquela habilidade.
Todos nós sabemos que aprendemos e melhoramos à medida em que praticamos. Desde a escola. Assim é com matemática, com leitura e interpretação de textos, com escrita de redações. Saindo da escola, com a direção de um carro ou moto, ou até mesmo ao pilotar um avião. São as horas de voo.
Quando nos apoiamos em máquinas ou ferramentas para aliviar o nosso trabalho, podemos cair nesse mesmo erro. Eu já vi pessoas usarem a calculadora para saber quanto dar de troco em uma compra de R$ 8. O indivíduo pagou R$ 10 e a caixa foi na calculadora fazer 10 – 8 = 2.
O problema de hoje está chegando a o que podemos chamar de discognia funcional.
Há pessoas com distúrbios neurológicos como a dislexia, que é a dificuldade de ler as palavras e combinações de letras. Também temos a disgrafia que representa um transtorno ao escrever, a discalculia, para lidar com números e cálculos dos mais simples e a disortografia, que é um problema com regras gramaticais e está ligada à dislexia.
O que podemos perceber é que há pessoas que têm esses distúrbios de forma neurológica, hereditária, genética. Seria uma doença. Mas há muitas pessoas que estão desenvolvendo os mesmos sintomas mesmo sem ter a mesma patologia.
Pelo simples fato de não desenvolver o hábito da leitura, há pessoas que não conseguem ler e entender um texto. São os analfabetos funcionais. Não é nenhuma doença neurológica. É falta de empenho. Aí, dizem que são disléxicas. Outras, não conseguem fazer contas simples. Se precisarem dividir 150 por 3 precisam recorrer a uma calculadora. Não fazer o mínimo esforço para resolver um cálculo simples ou complexo faz com que você desista de desenvolver seu cérebro para aquela habilidade.
O que acontece quando transferimos a nossa habilidade cognitiva para um sistema que já se demonstrou muito mais capaz e muito mais rápido que nós?
Desta forma, passamos a nos desenvolver cada vez menos a ponto de já não sabermos mais fazer uma reflexão simples ou preparar um simples texto para ser apresentado em um trabalho, um artigo ou um roteiro de um vídeo.
A criação de um texto envolve uma atividade muito bem elaborada do cérebro, onde estrutura, repertório, objetivos trabalham juntos para formar um texto, para transmitir em palavras algo muito maior.
Quando terceirizamos essas atividades intelectuais para uma Inteligência Artificial e nos apoiamos cada vez mais nela, o que fazemos é atrofiar a nossa capacidade de pensar, de articular e de ter conclusões.
Não estou aqui dizendo que não devemos usar as ferramentas que aumentam a nossa produtividade, mas que devemos saber fazer o trabalho sem o uso delas.
É do nosso esforço em aprender que vem o desenvolvimento de nossas habilidades. Pense nisso. Mas pense mesmo.

